Platelmintos
1. Introdução
Bora subir mais um degrau na evolução com os platelmintos, os famosos "vermes achatados".
Aqui a gente vê três novidades que mudaram o jogo da vida animal para sempre, eles são:
- os primeiros com simetria bilateral (um lado é espelho do outro),
- os primeiros triblásticos (com três folhetos embrionários, o que permite criar órgãos mais complexos)
- e, como detalhe, são acelomados (não têm uma cavidade corporal interna).
Esse novo "design" permitiu a cefalização, ou seja, a formação de uma cabeça com concentração de sentidos.
É um salto gigantesco.
Nesse grupo temos desde as planárias de vida livre até parasitas temidos como as tênias e o Schistosoma.
2. Explorando os Conceitos
A Revolução do Design: Bilateral, Triblástico e Acelomado
Vamos entender essas três novidades que são a base de tudo:
1. Simetria Bilateral:
Pela primeira vez, um animal tem "frente" (região anterior) e "trás" (região posterior), além de "costas" (dorsal) e "barriga" (ventral).
Isso está diretamente ligado a um movimento com direção, ao invés de ficar parado ou flutuando à deriva.
A parte da frente é a que explora o ambiente primeiro.
2. Triblásticos:
Além da ectoderme (que forma a pele) e da endoderme (que forma o sistema digestivo), surge a mesoderme no meio.
Esse terceiro folheto é a grande virada, pois é a partir dele que se formam os músculos, o sistema excretor e os órgãos reprodutivos.
É o que permite uma complexidade muito maior que a dos cnidários.
3. Acelomados:
Apesar de terem a mesoderme, os platelmintos não desenvolvem uma cavidade corporal interna (o celoma).
O espaço entre a epiderme e os órgãos digestivos é totalmente preenchido por um tecido chamado mesênquima.
É um corpo maciço, sem aquele espaço interno que a gente vai ver nos próximos grupos.
Fisiologia: As Soluções de um Verme Achatado
Usando a planária como nosso modelo principal, vamos ver como esse corpo funciona:
1. Alimentação:
A digestão das planárias é curiosa, porque elas só tem boca!
Sim, elas não tem ânus, o que faz com que o seu sistema digestório seja incompleto.
Elas têm uma faringe (um tipo de tubo muscular) que se projeta para fora da boca, localizada no meio da barriga.
Essa faringe libera enzimas, começa a digestão do lado de fora (o que é uma informação relevante para provas) e depois suga o alimento para a cavidade gastrovascular.
E por onde sai, já que não tem ânus?
É o que você pensou mesmo: o que não é aproveitado sai por onde entrou.
2. Locomoção:
Os músculos derivados da mesoderme ajudam a planária a virar e a se contorcer por cima de um muco que elas mesmas produzem.
Então sua locomoção é como se fosse deslizar por uma superfície.
3. Sistema Nervoso e Cefalização:
Aqui está o "cérebro" primitivo.
A cefalização concentrou na região da cabeça dois gânglios nervosos de onde partem dois cordões nervosos ventrais que percorrem o corpo. Isso permite respostas mais rápidas e coordenadas.
Na cabeça, elas têm ocelos, que são manchas oculares simples que detectam a intensidade da luz (não formam imagens, por isso elas geralmente fogem da luz).
Também possuem as aurículas, expansões laterais que funcionam como quimiorreceptores, para "cheirar" e "sentir o gosto" do ambiente.
4. Respiração:
O corpo achatado é a chave aqui.
A respiração é cutânea, ou seja, as trocas gasosas (entrada de O₂ e saída de CO₂) acontecem por difusão direta através de toda a superfície do corpo.
Não precisam de pulmões ou brânquias, são animais muito pequenos ainda para isso!
5. Excreção:
Para eliminar as excretas nitrogenadas (principalmente amônia) e controlar a quantidade de água no corpo (osmorregulação), eles têm um sistema excretor primitivo chamado de protonefrídios.
A unidade funcional desse sistema são as células-flama, que possuem flagelos cujo batimento empurra os resíduos e o excesso de água por uma rede de túbulos até serem eliminados por poros na superfície do corpo.
A palavra que você tem que lembrar para sua prova é célula-flama.
Reprodução:
Eles são craques nisso, tanto de forma assexuada quanto sexuada.
Assexuada:
A forma mais famosa é a regeneração.
Se você cortar uma planária em vários pedaços, cada pedaço consegue regenerar um indivíduo completo.
Elas também podem se reproduzir por fissão transversal, simplesmente se partindo ao meio.
Sexuada:
A maioria é hermafrodita.
Nas planárias, ocorre a fecundação cruzada: dois indivíduos se encontram e trocam espermatozoides.
Já nas tênias, que vivem sozinhas no intestino, a solução é a autofecundação, onde os espermatozoides de um segmento do corpo fecundam os óvulos de outro segmento do mesmo animal.
3. Exemplos do Mundo Real (A Classificação na Prática)
O filo Platyhelminthes se divide em três classes principais, com estilos de vida bem diferentes:
Classe Turbellaria (As Planárias):
Representante principal:
Planárias (Dugesia, Geoplana).
Características:
São os platelmintos de vida livre, encontrados em ambientes aquáticos de água limpa ou em solos úmidos.
São predadores e têm uma capacidade de regeneração lendária.
A reprodução assexuada por fissão é comum, e a sexuada é sempre por fecundação cruzada.
Classe Trematoda (Ex: Schistosoma):
Representante principal:
Schistosoma mansoni (causador da esquistossomose ou "barriga d'água") e Fasciola hepatica.
Características:
São todos parasitas.
Possuem ventosas para se fixarem no hospedeiro.
O corpo é revestido por uma cutícula resistente que os protege dos sucos digestivos do hospedeiro.
Geralmente têm ciclos de vida complexos (heteroxenos), envolvendo um hospedeiro intermediário (como um caramujo) e um definitivo (como o ser humano).
A reprodução é primariamente sexuada no hospedeiro definitivo.
Classe Cestoda (As Tênias ou Solitárias):
Representante principal:
Tênias (Taenia solium e Taenia saginata).
Características:
São endoparasitas intestinais altamente especializados.
O corpo é dividido em uma "cabeça" de fixação chamada escólex (com ventosas e/ou ganchos) e um longo corpo segmentado formado por anéis chamados proglótides.
O mais incrível: não possuem sistema digestório.
Absorvem os nutrientes já digeridos pelo hospedeiro através da pele.
Cada proglótide é uma unidade reprodutiva hermafrodita que realiza autofecundação.
As proglótides maduras, cheias de ovos, se desprendem e saem nas fezes do hospedeiro.
Existem diferenças entre as tênias, mas vamos ver isso no capítulo de doenças, tenha calma.
2. Tratar "verme" como um grupo biológico único:
"Verme" é um termo popular para qualquer animal de corpo mole, alongado e sem patas.
Biologicamente, existem os platelmintos (vermes achatados), os nematelmintos (vermes cilíndricos) e os anelídeos (vermes segmentados), que são filos completamente diferentes.
3. Pensar que planária só se reproduz cortando-se ao meio:
A regeneração e a fissão são formas de reprodução assexuada, e é um jeito top demais!
Mas elas também fazem reprodução sexuada (e com fecundação cruzada), o que é vital para a variabilidade genética da espécie.
5. Conclusão
Finalizamos mais um, os platelmintos são um divisor de águas na evolução animal.
Eles introduziram o plano corporal bilateral, a mesoderme e a cefalização, características que são a base para quase todos os animais mais complexos que vieram depois, incluindo nós.
Esse design permitiu tanto o desenvolvimento de predadores ágeis de vida livre, como as planárias, quanto a especialização extrema para a vida parasitária, como vemos nas tênias.
Para fechar com a curiosidade bizarra: a capacidade de regeneração das planárias está ligada a uma "memória" celular.
Se você treinar uma planária para reagir a um estímulo (como associar luz a um choque), cortar a cabeça dela fora e esperar o corpo regenerar uma nova cabeça, a nova cabeça "lembra" do treinamento e continua reagindo ao estímulo.




