O governo presidencial de João Goulart
1. O que eram as Reformas de Base?
Depois da retomada dos poderes presidenciais com o plebiscito de 1963, João Goulart voltou com tudo.
Mas, junto com ele, voltaram também os grandes dilemas:
Como governar um país dividido, com uma economia cambaleante e com setores da sociedade se organizando em lados opostos?
Foi nesse cenário turbulento que surgiram as Reformas de Base,
uma tentativa de transformar a estrutura social e econômica do Brasil.
As reformas de base defendidas por Jango não eram poucas, e tampouco simples:
- Reforma agrária: desapropriação de grandes latifúndios improdutivos, com indenização em títulos da dívida pública, para distribuição de terra a camponeses.
- Reforma urbana: controle do aluguel, planejamento das cidades e combate à especulação imobiliária.
- Reforma bancária: maior controle do sistema financeiro, com criação de um banco central e regulamentação do crédito.
- Reforma universitária: modernização do ensino superior e democratização do acesso.
- Reforma eleitoral: direito ao voto para analfabetos e soldados de baixa patente, além da legalização do Partido Comunista.
Acho que nem preciso falar que a elite não ficou nada satisfeita com essa proposta né?
As elites não tinham como parar as Reformas de Base… Jango tinha o apoio da maioria do Congresso…
Momento Reflexão: A terra
“Tirem a Deus de um camponês, e ele vai se ajoelhar diante da terra.”
Foi Dostoiévski quem disse isso.
E não foi à toa.
Ele sabia que a terra tem um peso simbólico e material enorme.
Ela não é só chão. Ela é comida, é refúgio, é segurança.
É poder.
Ao longo da história, cada vez que os de baixo tentaram colocar as mãos na terra, o mundo tremeu.
Lá na Roma Antiga, os irmãos Graco tentaram dividir terras públicas entre os pobres.
Resultado? Assassinato e repressão.
Na Europa da Reforma, os anabatistas acreditavam que a terra deveria ser comum — um bem coletivo, sem dono fixo.
Sonho bonito, né? Mas que acabou afogado em sangue.
E quando os camponeses franceses da Jacquerie se rebelaram contra os nobres, cansados de impostos e exploração, também foram massacrados.
Parece que mexer na terra é mexer num vespeiro.
E talvez seja por isso que Dostoiévski viu na terra um objeto de devoção.
Afinal, se ela garante a vida, quem controla a terra controla tudo.
Agora, pensa comigo:
Por que, em tantas épocas e lugares diferentes, os mais pobres se arriscaram tanto pra tentar mudar quem detém a terra?
E por que, quase sempre, foram derrotados?
A pergunta que fica é:
Será que a terra sempre vai ser mais sagrada para quem manda do que para quem trabalha nela?
2. O campo se mobiliza
No campo, as Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião, ganhavam força.
Inicialmente, atuavam dentro da legalidade, levando disputas para os tribunais.
Mas, com o tempo, parte do movimento radicalizou e passou a falar em reforma agrária "na lei ou na marra".
Francisco Julião era deputado estadual quando começou a atuar com os camponeses e usava os tribunais para transformar conflitos sociais em conflitos jurídicos.
Outra força importante foi a Igreja Católica, que, dividida, também atuava no campo.
Um de seus braços mais eficazes foi o Movimento de Educação de Base (MEB), inspirado nos métodos de Paulo Freire,
que usava rádios e cartilhas para alfabetizar e conscientizar a população rural.
O objetivo? Formar cidadãos capazes de lutar por seus direitos.
Infelizmente, a mobilização também trouxe repressão.
Líderes foram perseguidos, presos ou mortos, como o caso de João Pedro Teixeira, da Paraíba.
Momento Reflexão: A práxis educadora
Você já pensou que aprender pode ser um ato de rebeldia?
Pra muita gente, escola é só lugar de decorar regra e passar em prova.
Mas pra Paulo Freire, educar era bem mais que isso.
Educar era libertar.
Pra ele, a educação não devia ser uma via de mão única, onde o professor “derrama” conteúdo e o aluno “absorve” quieto.
Essa era a chamada educação bancária, que ele tanto criticava.
No lugar disso, Freire defendia a praxis educadora: uma união entre ação e reflexão.
Ou seja: o aluno pensa, age sobre sua realidade e volta a pensar — e esse ciclo nunca para.
Mas por que isso é tão revolucionário?
Porque, quando o aluno reflete sobre o mundo que vive, ele começa a entender as injustiças ao redor.
E quando ele entende, ele questiona.
E quando questiona, ele age.
Por isso, a educação de Paulo Freire incomodou tanta gente poderosa.
Ela ensinava o oprimido a deixar de ser oprimido.
Ensinava a enxergar o mundo como algo que pode — e deve — ser transformado.
Então, a pergunta que a gente pode fazer é:
Você está estudando só pra passar de ano?
Ou está estudando pra entender o mundo e mudar ele com suas próprias mãos?
3. A organização das esquerdas
A pressão por mudanças vinha também das cidades.
CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), UNE (União Nacional dos Estudantes), sindicatos e partidos de esquerda formaram uma frente ampla para defender as reformas.
Greves se multiplicavam, e a inflação aumentava o descontentamento popular.
O problema? Esse mesmo movimento que empurrava as reformas também assustava parte da sociedade.
Muitos viam ali o risco de uma revolução comunista.
4. Como o IPES articulou o golpe
Enquanto Jango e seus aliados se organizavam, os setores conservadores faziam o mesmo.
O IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) foram peças-chave na articulação do golpe de 1964.
Essas instituições:
- Financiavam campanhas eleitorais de candidatos conservadores;
- Espalhavam propagandas anticomunistas por todo o país;
- Recebiam apoio e dinheiro da CIA;
- Mantinham contato direto com militares e intelectuais ligados à Escola Superior de Guerra (ESG), que defendia o conceito de "guerra interna" como forma de combater o comunismo.
A ESG foi inspirada no National War College dos Estados Unidos e ajudou a criar a doutrina militar que justificaria a ditadura.
