O Golpe de 1964: Da Central à Marcha da Família
1. O comício da Central do Brasil
A tensão já estava no ar havia meses, mas os acontecimentos de março de 1964 colocaram tudo em ebulição.
O Brasil assistia, ao vivo e em cores, a uma disputa direta entre duas visões de país.
De um lado, João Goulart, sindicatos, camponeses, estudantes e trabalhadores pressionavam por reformas profundas.
Do outro, setores conservadores da sociedade, militares e empresários viam nas propostas de Jango uma ameaça à ordem e à propriedade.
No dia 13 de março de 1964, o presidente João Goulart subiu no palanque montado na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, diante de uma multidão de até 200 mil pessoas.
O discurso foi inflamado.
Jango anunciou reformas de base,
defendeu a reforma agrária, a estatização de refinarias estrangeiras e a convocação de um plebiscito para retomar os plenos poderes presidenciais.
Junto dele estavam figuras simbólicas, como sua esposa, Maria Thereza, e o polêmico Cabo Anselmo.
O tom do comício era claro: o governo se alinhava com os movimentos populares e pretendia confrontar o Congresso caso preciso.
2. A resposta conservadora: Marcha da Família com Deus pela liberdade
A resposta veio rapidamente.
No dia 19 de março, uma enorme passeata tomou as ruas de São Paulo.
Era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada pelo IPES com o apoio da União Cívica Feminina.
Cerca de 500 mil pessoas participaram, unidas contra Jango, o comunismo e as reformas.
Organizada pela UDN, a Marcha da família com Deus pela liberdade atraiu inúmeras pessoas da classe média brasileira, desde donas de casa até empresários…
As palavras de ordem exaltavam valores tradicionais, a religião e pediam intervenção militar.
Essa marcha foi apenas a primeira.
Em poucas semanas, mais de 50 cidades viram manifestações semelhantes.
A oposição ao governo estava organizada, financiada e com apoio crescente na opinião pública.
3. A crise dos marinheiros e o estopim
Poucos dias antes do golpe, outra crise atingiu o governo.
No 25 de março, marinheiros se rebelaram no Rio de Janeiro, exigindo melhores condições e o reconhecimento de sua associação.
O líder era o já citado Cabo Anselmo, que depois se revelaria um agente infiltrado.
O motim ganhou adesão de parte da tropa e causou um colapso na hierarquia da Marinha.
Quando Jango anistiou os revoltosos, os militares entenderam como uma afronta à disciplina.
Foi a gota d’água.
O que pensavam os dois lados?
Para os aliados de Jango, os marinheiros tinham o direito de se organizar e lutar por direitos.
Para os militares, isso era insubordinação e desmoralização das Forças Armadas.
4. Mourão Filho e a marcha dos tanques
Na madrugada de 31 de março, o general Olympio Mourão Filho, da 4ª Região Militar em Juiz de Fora (MG), tomou a iniciativa.
Sem esperar ordens superiores, colocou os tanques na estrada rumo ao Rio de Janeiro.
A movimentação surpreendeu até os aliados civis do golpe.
Ao longo do dia, outras unidades aderiram.
Jango, isolado e sem apoio militar, não resistiu.
Viajou para o Rio Grande do Sul e, depois, para o Uruguai, onde buscou exílio.
5. A atuação do Congresso e o golpe final
No dia 2 de abril, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a presidência, mesmo com Jango ainda em território nacional.
A manobra finalizou o golpe.
Até os Estados Unidos apoiou o golpe… mesmo que ainda haja muitas discussões em torno dessa questão.
O plano dos EUA para apoiar o golpe chamava-se "Operação Brother Sam" e previa enviar navios de guerra para o litoral brasileiro caso houvesse resistência.
Momento Reflexão: Porque civil?
Quando a gente escuta “golpe militar de 1964”, parece que foram só os generais que tomaram o poder, né?
Mas será que foi mesmo só o Exército que derrubou João Goulart?
A verdade é que o golpe não foi só militar.
Ele foi civil e militar.
Foi planejado, financiado e apoiado por setores da sociedade que se sentiram ameaçados por um Brasil mais justo.
Vamos pensar juntos?
A classe empresarial, com medo das Reformas de Base — como a reforma agrária e a taxação de grandes fortunas —
preferiu apostar num governo autoritário que garantisse seus lucros.
A Igreja Católica, com medo do avanço das ideias socialistas entre os fiéis, ajudou a espalhar o medo do “comunismo”,
inclusive com panfletos e marchas “pela família e pela liberdade”.
E a classe média, assustada com as greves, com a inflação e com o discurso radical dos movimentos populares, foi às ruas pedindo intervenção.
Ou seja: o golpe teve farda, mas também teve terno, batina e classe média batendo panela.
Esses setores queriam “ordem”.
Mas que tipo de ordem?
A ordem onde os de cima continuam mandando e os de baixo continuam obedecendo.
A pergunta que fica é:
Se tanta gente civil ajudou a colocar os militares no poder…
Será que a gente pode mesmo dizer que foi só uma “ditadura militar”?
Ou será que foi um projeto coletivo de medo, conservadorismo e privilégio?

