O Golpe de 1964: Da Central à Marcha da Família

5 min de leituraHistória

1. O comício da Central do Brasil

A tensão já estava no ar havia meses, mas os acontecimentos de março de 1964 colocaram tudo em ebulição.

O Brasil assistia, ao vivo e em cores, a uma disputa direta entre duas visões de país.

De um lado, João Goulart, sindicatos, camponeses, estudantes e trabalhadores pressionavam por reformas profundas.

Do outro, setores conservadores da sociedade, militares e empresários viam nas propostas de Jango uma ameaça à ordem e à propriedade.

No dia 13 de março de 1964, o presidente João Goulart subiu no palanque montado na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, diante de uma multidão de até 200 mil pessoas.

O discurso foi inflamado.

Jango anunciou reformas de base,

defendeu a reforma agrária, a estatização de refinarias estrangeiras e a convocação de um plebiscito para retomar os plenos poderes presidenciais.

Junto dele estavam figuras simbólicas, como sua esposa, Maria Thereza, e o polêmico Cabo Anselmo.

O tom do comício era claro: o governo se alinhava com os movimentos populares e pretendia confrontar o Congresso caso preciso.

2. A resposta conservadora: Marcha da Família com Deus pela liberdade

A resposta veio rapidamente.

No dia 19 de março, uma enorme passeata tomou as ruas de São Paulo.

Era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada pelo IPES com o apoio da União Cívica Feminina.

Cerca de 500 mil pessoas participaram, unidas contra Jango, o comunismo e as reformas.

Organizada pela UDN, a Marcha da família com Deus pela liberdade atraiu inúmeras pessoas da classe média brasileira, desde donas de casa até empresários…

As palavras de ordem exaltavam valores tradicionais, a religião e pediam intervenção militar.

Essa marcha foi apenas a primeira.

Em poucas semanas, mais de 50 cidades viram manifestações semelhantes.

A oposição ao governo estava organizada, financiada e com apoio crescente na opinião pública.

3. A crise dos marinheiros e o estopim

Poucos dias antes do golpe, outra crise atingiu o governo.

No 25 de março, marinheiros se rebelaram no Rio de Janeiro, exigindo melhores condições e o reconhecimento de sua associação.

O líder era o já citado Cabo Anselmo, que depois se revelaria um agente infiltrado.

O motim ganhou adesão de parte da tropa e causou um colapso na hierarquia da Marinha.

Quando Jango anistiou os revoltosos, os militares entenderam como uma afronta à disciplina.

Foi a gota d’água.

O que pensavam os dois lados?

Para os aliados de Jango, os marinheiros tinham o direito de se organizar e lutar por direitos.

Para os militares, isso era insubordinação e desmoralização das Forças Armadas.

4. Mourão Filho e a marcha dos tanques

Na madrugada de 31 de março, o general Olympio Mourão Filho, da 4ª Região Militar em Juiz de Fora (MG), tomou a iniciativa.

Sem esperar ordens superiores, colocou os tanques na estrada rumo ao Rio de Janeiro.

A movimentação surpreendeu até os aliados civis do golpe.

Ao longo do dia, outras unidades aderiram.

Jango, isolado e sem apoio militar, não resistiu.

Viajou para o Rio Grande do Sul e, depois, para o Uruguai, onde buscou exílio.

5. A atuação do Congresso e o golpe final

No dia 2 de abril, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a presidência, mesmo com Jango ainda em território nacional.

A manobra finalizou o golpe.

Até os Estados Unidos apoiou o golpe… mesmo que ainda haja muitas discussões em torno dessa questão.

O plano dos EUA para apoiar o golpe chamava-se "Operação Brother Sam" e previa enviar navios de guerra para o litoral brasileiro caso houvesse resistência.

Momento Reflexão: Porque civil?

Quando a gente escuta “golpe militar de 1964”, parece que foram só os generais que tomaram o poder, né?

Mas será que foi mesmo só o Exército que derrubou João Goulart?

A verdade é que o golpe não foi só militar.

Ele foi civil e militar.

Foi planejado, financiado e apoiado por setores da sociedade que se sentiram ameaçados por um Brasil mais justo.

Vamos pensar juntos?

A classe empresarial, com medo das Reformas de Base — como a reforma agrária e a taxação de grandes fortunas —

preferiu apostar num governo autoritário que garantisse seus lucros.


A Igreja Católica, com medo do avanço das ideias socialistas entre os fiéis, ajudou a espalhar o medo do “comunismo”,

inclusive com panfletos e marchas “pela família e pela liberdade”.

E a classe média, assustada com as greves, com a inflação e com o discurso radical dos movimentos populares, foi às ruas pedindo intervenção.

Ou seja: o golpe teve farda, mas também teve terno, batina e classe média batendo panela.

Esses setores queriam “ordem”.

Mas que tipo de ordem?

A ordem onde os de cima continuam mandando e os de baixo continuam obedecendo.

A pergunta que fica é:

Se tanta gente civil ajudou a colocar os militares no poder…

Será que a gente pode mesmo dizer que foi só uma “ditadura militar”?

Ou será que foi um projeto coletivo de medo, conservadorismo e privilégio?


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Isso foi só a base

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