Lipídios
Introdução
Quando você ouve a palavra "gordura" ou "lipídeo", o que vem à sua mente?
Provavelmente algo negativo, relacionado a dietas e problemas de saúde, certo?
De fato, não está errado, mas pensar só isso te limita demais.
Os lipídeos são um grupo extremamente diverso e vital de moléculas.
Sim, eles incluem as gorduras e os óleos, mas também as ceras, alguns hormônios e os componentes fundamentais das nossas membranas celulares.
A característica que une todo esse grupo é que eles são apolares, ou seja, hidrofóbicos (têm "medo" da água).
É por isso que o óleo e a água não se misturam.
Neste capítulo, vou te explicar os três tipos de lipídeos mais importantes para a bioquímica.
Nosso objetivo aqui é terminar o capítulo com você sabendo onde eles são essenciais na nossa vida (armazenar energia, construir células, enviar mensagens pelo corpo, etc).
1. Ácidos Graxos: As Caudas dos Lipídeos
Que nem fizemos com o aminoácido, vamos ver primeiro a sua “peça de construção”.
Essa peça é o ácido graxo.
Ácidos graxos são, quimicamente, ácidos carboxílicos de cadeia longa, geralmente com 12 ou mais carbonos.
Pense neles como longas "caudas" de carbono e hidrogênio com uma "cabeça" de ácido carboxílico (-COOH) em uma ponta.
A principal diferença entre os ácidos graxos está justamente na sua cauda.
Ácidos Graxos Saturados
A cauda de carbono só tem ligações simples.
Isso faz com que a molécula seja reta, como um palito de dente.
Por serem retas, elas conseguem se "empacotar" muito bem umas com as outras, formando interações fortes.
É por isso que as gorduras ricas em ácidos graxos saturados (como a manteiga e a gordura da picanha) são sólidas em temperatura ambiente.
(Se elas se empacotam bem, aumenta superfície de contato, aumenta PE, então elas são sólidas em temperatura ambiente.
O raciocínio nunca muda, tá vendo?)
Ácidos Graxos Insaturados
A cauda de carbono tem uma ou mais ligações duplas.
Cada ligação dupla (que na natureza é quase sempre do tipo cis) cria uma "dobra" na molécula, como um palito de dente quebrado.
Por causa dessas dobras, as moléculas não conseguem se empacotar direito.
As interações entre elas são mais fracas (menor área de contato entre elas).
E é por isso que as gorduras ricas em ácidos graxos insaturados (como o azeite de oliva) são líquidas em temperatura ambiente (são os óleos).
3. Ácidos Graxos Essenciais
Nosso corpo consegue produzir a maioria dos ácidos graxos de que precisa, mas alguns, chamados de essenciais, precisam vir da dieta.
Os mais famosos são o ômega-3 e o ômega-6, cruciais para a saúde do coração e do cérebro.
Essa nomenclatura "ômega" parece complicada, mas é bem lógica. Ela serve para nos dizer onde está a primeira ligação dupla no ácido graxo.
Só que, ao invés da gente começar a contar os carbonos da “cabeça” do ácido graxo (começando do lado do grupo funcional, que seria a regra IUPAC),
a gente começa a contar da ponta da “cauda”.
O último carbono da numeração IUPAC, para a nomenclatura ômega, será o primeiro.
Portanto, um ácido graxo ômega-3 é um ácido que possui a primeira ligação dupla no terceiro carbono, contado de trás para frente.
Fontes comuns de ômega-3 são: peixes gordurosos (salmão, sardinha), sementes de linhaça, etc.
E um ácido graxo ômega-6 é um ácido que possui a primeira ligação dupla no sexto carbono, contado de trás para frente.
Fontes comuns de ômega-6 são: óleos vegetais (soja, milho), nozes e sementes.
4. Triacilgliceróis: Juntando ácidos graxos para ter energia
Quando juntamos aminoácidos, formamos proteínas.
E aqui, quando juntamos os ácidos graxos com outras moléculas, como por exemplo o glicerol, nós formamos os triacilgliceróis.
O triacilglicerol é como você chama a gordura e o óleo.
Triacilgliceróis são a principal forma de armazenamento de energia em animais e plantas.
Eles são formados por uma molécula de glicerol ligada a três moléculas de ácidos graxos.
Eles são a nossa "poupança" de energia de longo prazo.
Enquanto os carboidratos são a energia para o "agora", as gorduras são a energia para "depois".
Elas armazenam muito mais energia por grama do que os açúcares.
5. Fosfolipídeos: Os Arquitetos das Células
Agora vamos conhecer o lipídeo mais genial de todos: o fosfolipídeo.
Ele é a base de todas as membranas celulares do seu corpo.
Sua estrutura é parecida com a de um triacilglicerol, mas com uma diferença crucial.
No lugar de um dos ácidos graxos, ele tem um grupo fosfato, que é polar e carregado eletricamente.
Isso dá ao fosfolipídeo uma natureza dupla, ele é anfifílico:
Cabeça: O grupo fosfato é polar e hidrofílico (ama água).
Caudas: As duas caudas de ácidos graxos são apolares e hidrofóbicas (odeiam água).
O que acontece quando você joga um monte dessas moléculas na água?
Elas se organizam espontaneamente da única maneira lógica possível para proteger suas caudas hidrofóbicas da água: elas formam uma bicamada lipídica.
As caudas apolares se viram para dentro, ficando juntas e longe da água.
As cabeças polares se viram para fora, interagindo com a água do lado de dentro e de fora da célula.
Essa bicamada lipídica é a estrutura fundamental de todas as membranas biológicas.
Ela funciona como uma barreira semipermeável, controlando o que entra e o que sai da célula.
É a genialidade da química criando a arquitetura da vida.
Pronto, já vimos o importante das proteínas e dos lipídios.
No próximo capítulo, vamos explorar a última grande classe de biomoléculas: os carboidratos, a nossa principal fonte de energia rápida.




