Introdução aos Cordados e Protocordados
1. Introdução
Bora falar do nosso filo, o dos Cordados.
Sim, o nosso.
É aqui que a gente se encaixa, junto com peixes, aves e todos os outros vertebrados.
Mas o legal é que esse grupo também tem membros invertebrados, que são como os protótipos, as versões beta do que viria depois.
O que une um humano, uma galinha, um peixe e um bicho esquisito que parece uma bolsa d’água presa numa rocha?
São quatro características que todo cordado tem que apresentar em pelo menos uma fase da vida.
É isso que a gente vai desvendar hoje: o que define um cordado e quem são os pioneiros invertebrados desse grupo.
2. Explorando os Conceitos
O RG dos Cordados: As Quatro Regras de Ouro
Para ser considerado um cordado, um animal precisa ter tido, em algum momento, estas quatro estruturas.
Não importa se elas somem depois.
1. Notocorda:
A primeira, que dá nome ao filo.
É um bastão flexível de células, tipo um eixo de sustentação primitivo, que fica no dorso do animal.
Nos vertebrados, como nós, ela é o molde para a formação da coluna vertebral e depois é reabsorvida.
Em alguns cordados mais simples, ela permanece por toda a vida.
2. Tubo Neural Dorsal:
Pensa nele como o esboço do nosso sistema nervoso central.
É um tubo que corre acima da notocorda.
Na maioria dos outros filos, o cordão nervoso é ventral (na barriga). Nos cordados, é dorsal.
Em nós, esse tubo se desenvolve para formar o cérebro e a medula espinhal.
3. Fendas Faringianas (ou Branquiais):
São aberturas na região da faringe.
Nos peixes, elas viram as brânquias, essenciais para a respiração debaixo d'água.
Em nós, essas fendas só aparecem na fase embrionária e depois se fecham, dando origem a outras estruturas da cabeça e do pescoço, como partes do ouvido.
4. Cauda Pós-Anal:
É literalmente uma cauda que se estende para além do ânus.
Em peixes, é fundamental para a natação.
Em muitos mamíferos, também.
Em humanos, a gente tem uma na fase embrionária, mas ela regride e o que sobra são os ossinhos do cóccix.
Características Gerais (Mas Não Exclusivas)
Além do RG, os cordados compartilham outras características com outros filos.
São importantes, mas não são exclusivas.
Deuterostômios:
Essa é a principal. Lembra do desenvolvimento embrionário?
Nos deuterostômios, o primeiro buraco (blastóporo) que se forma vira o ânus.
O único outro filo que tem essa característica são os equinodermos (estrelas-do-mar).
Por isso, apesar da aparência, as estrelas-do-mar são evolutivamente mais próximas de nós do que uma barata, por exemplo.
Isso cai muito em prova.
Outras:
São triblásticos (três folhetos embrionários), celomados (têm uma cavidade corporal) e com simetria bilateral (um lado é espelho do outro).
Nada de novo aqui, só a confirmação de uma linha evolutiva mais complexa.
3. Exemplos do Mundo Real
Vamos conhecer os "protocordados", os cordados invertebrados que são a base de tudo.
O Cefalocordado: Anfioxo, o "Manual do Cordado"
O anfioxo é o exemplo perfeito de um cordado.
Ele parece um peixinho minúsculo e translúcido que vive enterrado na areia do fundo do mar, só com a boca para fora.
Ele é o modelo ideal porque mantém as quatro características de cordado durante a vida inteira.
A notocorda vai da cabeça à cauda, dando sustentação.
O tubo neural corre logo acima dela.
As fendas faringianas são usadas tanto para filtrar o alimento da água quanto para respirar.
E a cauda pós-anal ajuda na natação.
Ele é um filtrador nato: a água entra pela boca, passa pelas fendas na faringe, o alimento é capturado e o resto sai.
O sistema circulatório dele é fechado, mas uma curiosidade: ele não tem coração.
O sangue é bombeado pela contração dos próprios vasos sanguíneos.
O Urocordado: Ascídia, o "Cordado que Desiste"
As ascídias são animais marinhos que, quando adultos, parecem uma bolsa colorida ou um jarro fixo em uma rocha (sésseis).
Olhando para o adulto, você nunca diria que ele é um parente próximo nosso.
A mágica acontece na fase de larva.
A larva da ascídia é livre-natante e um cordado de carteirinha: tem notocorda na cauda, tubo neural, fendas faringianas e cauda pós-anal.
Ela nada por aí até encontrar um bom lugar para se fixar.
Quando encontra, sofre uma metamorfose radical: perde a cauda (e a notocorda junto), o tubo neural encolhe e vira um gânglio simples, e o corpo se transforma naquele formato de saco.
A única característica que o adulto mantém são as fendas faringianas, que ele usa para filtrar água e se alimentar, de forma bem parecida com o anfioxo.
O Confronto: Anfioxo vs. Ascídia
Beleza, agora que conhecemos os dois, vamos colocar um contra o outro para resumir as diferenças que importam na prova.
Estilo de Vida:
O anfioxo é ativo, nadando e se enterrando na areia a vida toda.
A ascídia só nada quando é larva; o adulto é sedentário, grudado em uma rocha.
Características de Cordado:
O anfioxo é o "aluno nota 10", mantém as quatro características sempre.
A ascídia adulta joga quase tudo fora e fica só com as fendas faringianas.
Localização da Notocorda:
O nome já entrega.
Nos Cefalocordados (cephalo = cabeça), ela vai da cabeça à cauda.
Nos Urocordados (uro = cauda), a notocorda da larva fica restrita à cauda.
Coração:
O anfioxo não tem coração.
A ascídia tem um coração simples.
Reprodução:
O anfioxo tem sexos separados (dioico).
As ascídias são hermafroditas (monoicas).
4. Erros Comuns
1. Achar que todo cordado é vertebrado.
Esse é o erro mais básico.
O filo Chordata inclui os protocordados (anfioxos e ascídias), que não têm vértebras.
A coluna vertebral é uma característica de um subgrupo dentro dos cordados, não do filo inteiro.
2. Pensar que o adulto precisa ter as quatro características.
A regra é clara: "em pelo menos uma fase da vida".
A ascídia adulta é o melhor exemplo.
Ela perde quase tudo, mas como a larva tinha, ela continua sendo uma cordada.
3. Assumir que o anfioxo é nosso parente mais próximo.
Pela lógica, o anfioxo, que se parece mais com um peixe, deveria ser evolutivamente mais próximo de nós do que a ascídia, que parece uma esponja.
Mas as análises de DNA mostram o contrário: os urocordados (ascídias) são o grupo irmão dos vertebrados.
É uma pegadinha clássica.
5. Conclusão
Entender os cordados é entender a nossa própria origem.
As quatro características-chave (notocorda, tubo neural dorsal, fendas faringianas e cauda pós-anal) são a planta baixa que define todo o filo.
Os protocordados, como o anfioxo e a ascídia, nos mostram as versões mais primitivas dessa estrutura, ajudando a gente a montar o quebra-cabeça da evolução dos vertebrados.
Para fechar com uma curiosidade bizarra:
Algumas espécies de ascídias acumulam vanádio, um metal pesado, em suas células sanguíneas.
O sangue delas pode ficar amarelo ou verde e é tão concentrado que se torna tóxico para predadores.
Elas são basicamente sacos de veneno fixados em rochas.



