Aplicações das pilhas no dia a dia

8 min de leituraQuímica

Introdução: Trazendo a Pilha para o Mundo Real

Nos últimos capítulos, nós montamos pilhas, aprendemos a prever quem oxida e quem reduz, e até calculamos a voltagem gerada.

Agora, você pode estar se perguntando: "Ok, mas onde eu uso isso na minha vida?".

E a resposta é: em todos os lugares. Nesse assunto, eu não preciso nem forçar pra te dizer isso, porque você está lendo isso por um celular, tablet ou notebook.

E independente de qual seja, ele só funciona por conta da eletroquímica.

Hoje, vamos sair um pouco do laboratório e ver como os princípios das pilhas se aplicam no nosso dia a dia.

Vamos entender por que os metais enferrujam (e como evitar isso) e dar uma espiada em tecnologias mais avançadas, como as células de combustível.

1. Corrosão: A Pilha Indesejada

Você já viu um portão de ferro, um prego velho ou a lataria de um carro antigo cheia de ferrugem?

Aquilo, meu amigo, nada mais é do que uma pilha funcionando onde não deveria.

A ferrugem é o resultado da oxidação do ferro, um processo espontâneo que acontece quando o ferro entra em contato com o oxigênio do ar e a umidade.

Basicamente, o ferro, o oxigênio e a água formam uma pilha eletroquímica.

Vamos ver as reações:

Quem oxida? O ferro, que tem um potencial de redução baixo. Ele atua como o ânodo.

$Fe (s) \rightarrow Fe^{2+} (aq) + 2é, E°oxid = + 0,44 V$

Quem reduz? O oxigênio do ar, na presença de água. Ele atua como o cátodo.

$O_2 (g) + 2 H_2O (l) + 4é \rightarrow 4 OH^{-} (aq), E°red = + 0,40 V$

Calculando a ddp dessa pilha indesejada:

$\Delta E° = E°red + E°oxid = 0,40 + 0,44 = + 0,84 V$

Como o ΔE° é positivo, a reação é espontânea.

A natureza quer que o ferro enferruje! Os íons $Fe^{2+} e OH^{-}$ formados reagem entre si e com mais oxigênio, formando a ferrugem ($Fe_2O_3 \cdot n H_2O$).

E é essa ferrugem que dá aquela camada marrom-avermelhada, porosa e quebradiça que destrói as estruturas metálicas.

E a "ferrugem" verde do cobre?

Você já viu estátuas de bronze ou cúpulas de igrejas antigas com uma coloração esverdeada? É o mesmo processo!

O cobre também oxida em contato com o ar e a umidade, formando uma camada de compostos de cobre que chamamos de azinhavre ou pátina.

É uma pilha espontânea, só que mais lenta e com uma cor diferente.

2. Como Combater a Corrosão?

Se a ferrugem é uma pilha espontânea, como a gente pode lutar contra ela?

Usando os mesmos princípios da eletroquímica a nosso favor!

Metais de Sacrifício: Dando a vida pelo Ferro

A ideia aqui é genial: se o ferro está oxidando porque ele tem um potencial de redução baixo, que tal colocar ao lado dele um outro metal com um potencial ainda mais baixo?

Esse outro metal será o "herói". Por ter uma tendência a oxidar ainda maior que a do ferro, ele vai se "sacrificrar", oxidando no lugar do ferro.

O metal de sacrifício mais comum é o magnésio (Mg) ou o zinco (Zn).

E°red (Ferro) = - 0,44 V

E°red (Zinco) = - 0,76 V

E°red (Magnésio) = - 2,37 V

Se conectarmos um bloco de magnésio ao casco de um navio (que é feito de aço, uma liga de ferro), formamos uma nova pilha.

Agora, a competição é entre o ferro e o magnésio.

Como o magnésio tem o menor potencial de todos, é ele quem vai oxidar. O ferro fica protegido, atuando como o cátodo.

Essa técnica é chamada de proteção catódica e é usada em cascos de navios, plataformas de petróleo e tubulações subterrâneas.

De tempos em tempos, o bloco do metal de sacrifício, já todo corroído, precisa ser substituído.

Galvanização: A Capa Protetora

Outra técnica muito comum é a galvanização, que consiste em revestir uma peça de ferro ou aço com uma fina camada de outro metal, geralmente o zinco.

Pense em telhas, parafusos e portões "galvanizados".

A galvanização oferece uma dupla proteção:

Proteção por Barreira: A camada de zinco cria uma barreira física, isolando o ferro do contato com o ar e a umidade. Simples assim.

Proteção por Sacrifício: E se a camada de zinco for arranhada? Mesmo com o ferro exposto, a proteção continua!

O zinco, por ser mais reativo (menor E°), ainda atuará como metal de sacrifício, oxidando no lugar do ferro exposto no arranhão.

Pense que nem a foto abaixo. Quando o zinco está inteiro, ele impede que o ferro oxide porque ele está “encapando” ele.

Depois, quando o zinco já é consumido, a capa deixa de existir, mas ele ainda está próximo do ferro.

Dessa forma, quando o agente oxidante chega perto deles dois, quem oxida primeiro continua sendo o zinco, já que seu E°oxid é maior que o do ferro.

É uma solução dois em um, extremamente eficiente!

3. Pilhas do dia a dia: Leclanché, Alcalina, Bateria e Célula de Combustível

Além das pilhas "didáticas" como a de Daniell, usamos no nosso cotidiano vários tipos de baterias comerciais.

Vamos conhecer quatro das mais importantes, de forma rápida.

O importante aqui não é decorar a reação ou o valor do seu $\Delta E°$.

Nosso objetivo aqui é entender o que teve de diferente e de evolução na pilha e onde ela se aplica.

Pilha Seca de Leclanché (Pilha Comum)

Essa é a famosa pilha de zinco-carvão, a mais barata e comum que encontramos, usada em controles remotos, relógios de parede, etc.

Apesar do nome "seca", ela tem uma pasta úmida dentro.

O ânodo (-) é feito de zinco e o cátodo (+) é feito de $C_{(grafite)}$ mergulhado em uma pasta de $MnO_2 e de NH_4Cl$. É o $MnO_2$ que reduz.

Essa pilha costuma ter uma voltagem de 1,5 V.

$Zn(s) \rightarrow Zn^{2+}(aq) + 2é$

$2 MnO_2(s) + 2NH_4^{+}(aq) + 2é \rightarrow Mn_2O_3(s) + 2NH_3(aq) + H_2O(l)$

Pilha Alcalina

É a versão "premium" da pilha comum.

Ela dura muito mais (de 5 a 8 vezes mais) e é ideal para aparelhos que consomem mais energia, como brinquedos e câmeras.

A química é parecida, mas a grande diferença é o eletrólito.

A Mudança Chave: Em vez da pasta ácida de cloreto de amônio, a pilha alcalina usa uma pasta básica (alcalina), geralmente de hidróxido de potássio (KOH).

Em meio básico, a reação se torna mais eficiente e evita a corrosão do zinco quando a pilha não está sendo usada, diminuindo chance de vazamentos.

Esse foi um grande avanço!

$Zn(s) + 2 OH^{-}(aq) \rightarrow ZnO(s) + H_2O(l) + 2é$

$2MnO_2(s) + H_2O(l) + 2é \rightarrow ZnO(s) + H_2O(l) + 2é$

Bateria de Chumbo-Ácido (Bateria de Carro)

Essa é a gigante que dá a partida no seu carro.

Ela é diferente das outras porque é recarregável.

Na verdade, é um conjunto de seis pilhas de 2 V ligadas em série, totalizando 12 V.

$Pb(s) + SO_4^{2-}(aq) \rightarrow PbSO_4(s) + 2é$

$PbO_2(s) + 4H^{+}(aq) + SO_4^{2-}(aq) + 2é \rightarrow PbSO_4(s) + 2H_2O(l)$

Ela funciona, funciona, funciona… e na hora de recarregar?

A gente conecta a bateria a uma fonte externa (alternador do carro), forçando o processo de eletrólise.

O sulfato de chumbo sólido que fica se acumulando tanto no ânodo quanto no cátodo é consumido, o ácido sulfúrico é regenerado e a bateria está pronta para ser usada de novo.

Genial!

Células de Combustível: A Pilha que Não Acaba

Para fechar, vamos falar de uma tecnologia que parece coisa de filme de ficção científica, mas que já é realidade: a célula de combustível.

Pense nela como uma pilha que nunca "acaba". Por quê?

Porque, em vez de ter os reagentes guardados dentro dela (como numa pilha comum), ela é continuamente alimentada com um combustível e um oxidante.

Normalmente, o combustível é o gás hidrogênio e o oxidante é o oxigênio do ar ($H_2 ​e O_2$​).

Enquanto houver fornecimento de combustível e oxigênio, a célula continua gerando eletricidade.

A célula de combustível de hidrogênio é a mais famosa:

Ânodo (-): $2 H_2 (g) \rightarrow 4 H^{+} (aq) + 4 é$

Cátodo (+): $O_2 (g) + 4 H^{+} (aq) + 4é \rightarrow 2 H_2O (l)$

Reação Global: $2 H_2 (g) + O_2 (g) \rightarrow 2 H_2O (l)$

O resultado é incrível: uma reação que gera eletricidade e cujo único "resíduo" é água pura!

É por isso que essa tecnologia é vista como uma grande promessa para carros e para a geração de energia limpa no futuro.

Conclusão

  • Corrosão é simplesmente uma pilha da natureza que é indesejável para a gente;

  • Evitamos usando metais que possuem maior E°oxid que o próprio ferro, para que eles oxidem no lugar do ferro (metal de sacrifício ou galvanização);

  • Existem várias pilhas no nosso dia a dia;

  • Pilha seca é a mais simples, sem segredo;

  • Pilha alcalina inovou quando usou um meio básico para evitar que o zinco fosse corroído quando a pilha não estava sendo usada;

  • Bateria inovou ainda mais ao produzir um sólido que incrustrava na pilha que poderia ser futuramente consumido para recarregar a pilha por meio de eletrólise;

  • Células de combustível conseguem gerar energia elétrica produzindo apenas água como resíduo, o que é um sonho para a energia limpa no mundo.

Terminamos pilhas. A partir do próximo capítulo, veremos eletrólise! Vamos lá, estamos terminando!

Junior, o parceiro de estudos da Fracta
Isso foi só a base

A teoria é só o aquecimento.

Você já começou a entender Aplicações das pilhas no dia a dia. O que muda o jogo é o que vem agora — praticar, tirar dúvida na hora e seguir um plano feito pra você.

Praticar questões
Questões na medida do seu nível, com correção na hora.
Tirar dúvida com o Junior
Travou? Ele explica do seu jeito, quantas vezes precisar.
Roteiro personalizado
Um plano de estudo montado pra onde você quer chegar.
Acompanhamento
Veja sua evolução de verdade, semana após semana.