A crise de 29 e a Aliança Liberal
1. A economia cafeeira em colapso
O modelo agroexportador já dava sinais de esgotamento, mas a crise de 1929 foi o golpe final.
Com a quebra da Bolsa de Nova York, o mundo entrou em crise e o café — principal produto brasileiro — perdeu seu mercado.
A superprodução se transformou em estoques encalhados, e o governo, para conter os preços,
passou a comprar e queimar sacas de café (política de valorização iniciada no Convênio de Taubaté, em 1906).
Lembra disso?
Em que mundo isso precederia um final harmônico e pacífico?
A população passando fome e o Governo queimando café só para garantir que o preço de venda fosse alto.
(Sugestão de recurso visual: gráfico da produção e queima de café antes/depois de 1929)
2. A crise de 1929 e a quebra do arranjo político
Com a crise econômica veio a crise política.
O sistema da Política dos Governadores e do café com leite dependia de estabilidade.
Mas ao indicar Júlio Prestes (SP) como sucessor, o presidente Washington Luís rompeu o acordo informal de alternância com Minas Gerais.
Os mineiros se uniram ao Rio Grande do Sul e à Paraíba para formar a Aliança Liberal, lançando Getúlio Vargas à presidência, com João Pessoa como vice.
3. A Aliança Liberal
Às vezes, a política parece até uma roda de samba:
tem gente que nunca se viu antes, mas que se junta pelo mesmo compasso.
Foi mais ou menos isso que aconteceu com a Aliança Liberal,
um grupo formado em 1929 para enfrentar o poder quase absoluto da oligarquia paulista (representada pelo Partido Republicano Paulista — PRP)
e para barrar a candidatura de Júlio Prestes à presidência.
Mas quem eram, afinal, os integrantes dessa frente tão ampla?
E o que unia pessoas tão diferentes entre si?
3.1 A oligarquia mineira (PRM)
Liderada por Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, a elite de Minas Gerais fazia parte do tradicional arranjo de poder da Primeira República, a famosa política do café com leite.
Mas, quando Washington Luís (PRP) indicou outro paulista para sua sucessão (quebrando o revezamento informal entre os dois estados), os mineiros se sentiram traídos.
Por que aderiram à Aliança?
- Para revidar a quebra do acordo.
- Para retomar o protagonismo político mineiro.
- Para mostrar que São Paulo não mandava sozinha no país.
(Sugestão de recurso visual: mapa político da época destacando São Paulo e Minas, com setas mostrando o revezamento quebrado)
3.2 As oligarquias menores (como RS e PB)
Estados como Rio Grande do Sul e Paraíba sempre ficaram à margem do poder central.
No sul, o presidente gaúcho Getúlio Vargas sonhava com um Brasil mais industrializado.
Já na Paraíba, o presidente estadual João Pessoa era o símbolo de uma elite emergente que queria deixar de ser coadjuvante.
Por que aderiram à Aliança?
- Para romper com a exclusividade paulista-mineira no poder.
- Para fortalecer uma política voltada ao mercado interno.
- Para reivindicar o direito de serem protagonistas no cenário nacional.
(Sugestão de recurso visual: retratos de Vargas e João Pessoa, com seus discursos ou programas de governo em destaque)
3.3 A burguesia urbana e industrial
Essa classe crescia principalmente no Sul e Sudeste. Empresários,
comerciantes e donos de pequenas indústrias estavam cansados de um Estado que protegia o café, mas ignorarava o setor urbano emergente.
Por que aderiram à Aliança?
- Para defender a diversificação econômica.
- Para exigir investimentos em infraestrutura, educação e indústria.
- Para escapar da política a favor dos coronéis.
(Sugestão de recurso visual: gráfico mostrando o crescimento urbano e industrial vs. apoio ao café)
3.4 O Partido Democrático de São Paulo
Surge como oposição interna ao PRP, representando a burguesia urbana paulista descontente com o domínio dos cafeicultores.
Por que aderiram à Aliança?
- Para romper com a velha oligarquia rural paulista.
- Para defender uma modernização administrativa.
- Para conquistar espaço na política estadual e federal.
3.5 Os tenentes liberais
Eram jovens militares, em sua maioria de classe média, que participaram de revoltas nos anos 1920 e defendiam um Estado mais forte e atuante.
Por que aderiram à Aliança?
- Porque acreditavam que Vargas poderia representar uma ruptura com o velho sistema.
- Porque viam na Aliança uma chance de introduzir reformas sociais e morais.
- Porque estavam decepcionados com os resultados das revoltas anteriores e viam ali uma nova oportunidade.
(Sugestão de recurso visual: linha do tempo com as principais revoltas tenentistas e adesão à Aliança Liberal)
3.6 Trabalhadores e setores populares
Mesmo com pouca participação formal, muitos operários e movimentos sindicais viam na Aliança Liberal uma chance de mudança,
especialmente após anos de repressão sob a elite agrária.
Por que apoiaram?
- Pela promessa (mesmo que vaga) de direitos trabalhistas.
- Por cansar da repressão e da falta de voz no sistema político.
- Porque os tenentes e Vargas falavam em modernização, o que soava esperançoso.
3.7 A política de conciliação de Vargas
Getúlio Vargas soube costurar bem essa aliança. Ele:
- Fez concessões a cada grupo;
- Evitou assumir um discurso radical;
- Se apresentou como um homem de centro, disposto a ouvir todos;
- Construiu a imagem de um líder nacional conciliador.
Essa capacidade de agradar oligarcas, operários e militares ao mesmo tempo foi essencial para a força da Aliança Liberal, mesmo que, mais tarde, essas contradições explodissem.
3.8 O objetivo em comum
Apesar das diferenças, todos esses grupos tinham um mesmo alvo:
👉 Derrubar o domínio da oligarquia paulista (PRP)👉 Impedir a posse de Júlio Prestes👉 Reconfigurar o jogo político nacional
E foi essa união — improvável, tensa e cheia de interesses diferentes — que levou o Brasil à Revolução de 1930.
4. A eleição de 1930: Vargas x Júlio Prestes
A campanha foi intensa, com comícios, caravanas e grande mobilização popular.
A Aliança Liberal defendia:
- Voto secreto
- Reforma agrária
- Direitos trabalhistas (jornada de 8 horas, salário mínimo)
- Combate à corrupção
Como já disse anteriormente, de tudo um pouco.
Mas o sistema eleitoral estava viciado.
Júlio Prestes venceu com 1.091.709 votos, contra 742.794 de Vargas.
Em muitos lugares, a eleição foi marcada por fraudes e coerções.
Como se isso fosse alguma novidade.
5. O assassinato de João Pessoa e a faísca da revolta
Em 26 de julho de 1930, João Pessoa foi assassinado em Recife por João Dantas,
motivado por vingança pessoal.
Mas a Aliança Liberal transformou o crime em ato político:
o corpo de Pessoa foi levado ao Rio e virou símbolo de martírio.
“Não é o corpo de um homem, é o cadáver da Nação!”, gritou Maurício de Lacerda, incendiando os ânimos.
Era o pretexto que faltava para a rebelião.
É Júlio Prestes, não foi dessa vez que você se tornou presidente…